Capítulo 0001 – A Vila na Orla da Floresta
por adminstaging“Segundo Tolo” abriu os olhos e encarou o teto de palha e lama acima de sua cabeça.
O acolchoado que cobria seu corpo tinha um tom amarelo profundo e exalava um leve cheiro de mofo.
Era tão velho que sua cor original já não podia mais ser distinguida.
Ao seu lado, seu segundo irmão, Han Zhu, dormia profundamente. Roncos suaves escapavam de sua boca de tempos em tempos.
A cerca de um metro e meio da cama, uma parede de terra apresentava inúmeras rachaduras deixadas pela passagem dos anos. Do outro lado, vinha a voz resmungona de sua mãe e, ocasionalmente, o som da respiração profunda de seu pai enquanto fumava o cachimbo.
Segundo Tolo fechou lentamente os olhos, tentando forçar-se a dormir.
Ele sabia que, se não adormecesse agora, não conseguiria acordar cedo no dia seguinte.
E se acordasse tarde, não poderia subir as montanhas com seus bons amigos para coletar lenha.
O verdadeiro nome de Segundo Tolo era Han Li.
Esse nome elegante não fora dado por seus pais.
Quando nasceu, eles ofereceram dois pedaços de pão de milho ao Ancião Zhang da vila, pedindo que ele concedesse ao bebê um nome formal.
Quando o Tio Zhang era jovem, havia frequentado a escola junto das crianças ricas da cidade. Era o único na vila que sabia ler algumas palavras e, por isso, mais da metade das crianças daquele lugar haviam sido nomeadas por ele.
Han Li era chamado de “Segundo Tolo” por todos na vila.
Apesar do apelido, ele não tinha aparência estúpida ou tola.
Pelo contrário, era considerado a pessoa mais inteligente entre as crianças.
Ainda assim, fora de casa, quase ninguém o chamava por seu nome verdadeiro.
Para todos, ele era apenas “Segundo Tolo”.
A razão para isso era simples: já existia alguém chamado “Tolo” na vila.
Mas esse tipo de apelido não era nada incomum. Havia crianças chamadas “Cãozinho” e até “Ovo Burro”.
Comparado a esses nomes, “Segundo Tolo” não parecia tão ruim.
Por isso, Han Li encontrava algum consolo, embora não gostasse muito do apelido.
Fisicamente, ele era comum.
Sua pele era bronzeada, e sua aparência correspondia perfeitamente à de uma criança nascida em uma comunidade agrícola.
No fundo, porém, seu coração amadurecera muito mais rápido do que o das outras crianças.
Desde pequeno, ele ansiava por um dia deixar aquela pequena vila e explorar as terras férteis do mundo exterior, sobre as quais o Tio Zhang sempre falava.
Han Li nunca ousara compartilhar esses sonhos com ninguém.
Se o fizesse, os adultos da vila ficariam profundamente chocados.
Afinal, deixar aquele lugar era uma ideia que nem mesmo eles consideravam com facilidade, quanto mais uma criança.
As crianças de sua idade apenas perseguiam galinhas e acariciavam cães.
Jamais haviam cogitado abandonar a vila.
A família de Han Li era composta por sete pessoas: dois irmãos mais velhos, uma irmã mais velha, uma irmã mais nova e seus pais.
Ele era o quarto filho.
Naquele ano, completara dez anos de idade.
Viviam uma vida difícil, porém honesta.
Carne e peixe eram raros à mesa, mas, ainda assim, toda a família se contentava com os poucos recursos que possuía.
Nesse momento, Han Li pairava entre o sono e a vigília.
Enquanto adormecia lentamente, apenas um pensamento ocupava sua mente:
Enquanto estiver nas montanhas, preciso colher mais frutas vermelhas para minha irmãzinha, a quem mais adoro!
Na manhã seguinte, ao meio-dia.
Han Li protegia-se do sol escaldante com a sombra projetada por uma pilha de lenha em suas costas.
Amarrada ao redor do peito, havia uma bolsa cheia até a borda com frutas vermelhas, que saltavam a cada passo enquanto ele caminhava de volta para casa.
Ele não fazia ideia de que, naquele exato momento, havia um convidado em sua casa.
Um convidado que mudaria seu destino para sempre.
Esse visitante tinha laços de sangue muito próximos com Han Li.
Era seu Terceiro Tio.
Segundo os rumores, ele era gerente de um restaurante na cidade vizinha. Para seus pais, o Terceiro Tio era o mais capaz dentre todos os membros da família Han.
Após centenas de anos, finalmente haviam produzido alguém como ele.
Uma figura respeitável, com status dentro da família.
Quando Han Li era pequeno, encontrara o Terceiro Tio apenas algumas vezes.
Graças à recomendação dele, o irmão mais velho de Han Li tornara-se aprendiz de ferreiro na cidade.
De vez em quando, o tio trazia comida para seus pais.
Por cuidar da família com tanta consideração, Han Li tinha uma ótima impressão dele.
Mesmo que seus pais não dissessem nada, ele sabia o quanto eram gratos em seus corações.
O irmão mais velho de Han Li era o orgulho da família.
Como aprendiz de ferreiro, depois de descontar as despesas de vida, ele ainda conseguia enviar trinta moedas de cobre para casa todos os meses.
E, quando finalmente concluísse o aprendizado, ganharia ainda mais.
Sempre que seus pais falavam sobre o filho mais velho, seus semblantes se enchiam de orgulho.
Embora ainda fosse jovem, Han Li sentia uma profunda inveja.
O melhor trabalho que ele poderia almejar seria tornar-se aprendiz de um mestre artesão, ganhando a vida com o próprio ofício.
Assim, quando viu as vestes de cetim novas e o rosto redondo de seu Terceiro Tio, ficou radiante.
Depois de empilhar a lenha em um canto fora da casa, ele correu para a frente e cumprimentou o parente.
— Terceiro Tio, Han Li o cumprimenta.
Após isso, permaneceu obedientemente ao lado, ouvindo o tio conversar com seus pais.
O Terceiro Tio sorriu para ele enquanto falava.
— Que criança sensata!
Após elogiá-lo, voltou sua atenção para os pais e explicou o motivo da visita.
Han Li era jovem demais para compreender completamente as palavras do tio, mas conseguia captar o sentido geral.
O restaurante do Terceiro Tio tinha o apoio da Seita dos Sete Mistérios.
A seita era dividida em divisões interna e externa e, recentemente, o Terceiro Tio fora reconhecido oficialmente como um Discípulo Externo.
Isso lhe dava o direito de levar uma criança entre sete e doze anos para participar do Exame de Discípulos Internos.
Uma vez a cada cinco anos, a Seita dos Sete Mistérios emitia convites formais para jovens participarem do teste.
O exame começaria no mês seguinte.
O Terceiro Tio não tinha filhos e era um homem astuto.
Naturalmente, pensou em Han Li, que se encaixava perfeitamente no requisito de idade.
Quando o normalmente dócil Pai Han ouviu palavras como “Jianghu”, “Seita” e outros termos desconhecidos, sentiu-se extremamente hesitante.
Levando o cachimbo aos lábios, tragou profundamente e permaneceu em silêncio.
Segundo o Terceiro Tio, a Seita dos Sete Mistérios era considerada uma das melhores em um raio de centenas de quilômetros.
Se alguém se tornasse um Discípulo Interno, poderia aprender artes marciais, comer e dormir de graça e ainda receber uma mesada mensal.
Mesmo aqueles que falhassem no exame poderiam ingressar na divisão externa e tornar-se Discípulos Externos.
Ainda assim, teriam a chance de ajudar a seita em assuntos externos.
Ao ouvir que seu filho poderia receber uma mesada e talvez alcançar o mesmo sucesso do Terceiro Tio, Pai Han finalmente cedeu.
O Terceiro Tio ficou radiante.
Deixou duas moedas de prata sobre a mesa e disse que retornaria em um mês para escoltar Han Li até o local do teste.
Durante esse período, o garoto deveria ser bem alimentado e bem vestido, para fortalecer o corpo e aumentar suas chances.
Após dar as instruções, o Terceiro Tio despediu-se, deu um tapinha na cabeça de Han Li e partiu para a cidade.
Embora não entendesse tudo, Han Li compreendia uma coisa.
Poderia ganhar dinheiro na cidade grande.
Seu antigo sonho parecia prestes a se tornar realidade.
A empolgação foi tamanha que ele não conseguiu dormir direito por várias noites.
Um mês se passou.
O Terceiro Tio retornou à vila e levou Han Li até o local do teste.
Antes de partir, o pai do garoto repetiu inúmeras vezes as mesmas instruções:
— Deve ser honesto, suportar dificuldades e evitar conflitos desnecessários.
A mãe insistia para que cuidasse da saúde e se alimentasse bem.
No dia da partida, o Terceiro Tio chegou de carruagem.
À medida que seus pais desapareciam de vista, Han Li mordeu os lábios para conter as lágrimas.
Embora fosse mais maduro que outras crianças de sua idade,
ele ainda tinha apenas dez anos.
Era a primeira vez que deixava casa.
A saudade começou a crescer silenciosamente em seu coração.
Ele decidiu que, assim que ficasse rico, retornaria imediatamente.
Nunca mais se separaria de seus pais.
O que Han Li não sabia era que, a partir daquele momento, o dinheiro já não teria mais significado.
Ele havia escolhido um caminho diferente do dos mortais comuns.
Um caminho que o levaria, passo a passo,
rumo à imortalidade.

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